Este texto foi extraído do site da Câmara, autora: Mara Danusa

O bairro do Bonfim tem uma área total de 80 alqueires, localizados no Distrito Administrativo do Centro. Delimita-se ao Norte pelo bairro Rochdale e pelo Rio Tietê; a Leste pelo bairro Presidente Altino e pela Avenida Fuad Auada; ao Sul pelos bairros Centro, Industrial Centro e Km 18, pela Rua Erasmo Braga e Rua da Estação; a Oeste, com o bairro Setor Militar.

Os fundadores do bairro compraram terrenos que situavam-se entre o rio Tietê e a linha férrea, depois do córrego Bussocaba e até o corrégo João Alves. Foram dados em pagamento por José Pinto Ferreira ao ferreiro Manoel José Rodrigues, em 1889. Eram tempos de desenvolvimento urbano e, por isso, ter uma olaria significava melhora de vida. Assim, Manoel José Rodrigues resolveu explorar a argila que havia nas margens do Tietê e nos outros dois rios da sua divisa e produzir tijolos e telhas. Transportar para capital era fácil. Ou de barcaças pelo rio ou de trem pelo pórtico construído pelo vendedor de suas terras.

Nesta atividade, o fundador do bairro viveu por 20 anos. Depois, os tempos econômicos mudaram. O barro se esgotou e a produção passou a buscar a matéria-prima mais distante. Assim, Manoel José Rodrigues e sua mulher Rosa Gomes Viana vão ao primeiro cartório de notas instalado no Distrito de Osasco em 16 de agosto de 1919. Vendem o primeiro terreno com sete metros de frente por 27 metros de fundo a Angelico Vallim, comerciante. Neste mesmo mês, no dia 21, eles vendem outro pedaço de suas terras para Francisco Barbieri, empreiteiro de obras. Com estas duas vendas, o “Maneco”, como era conhecido José Manoel Rodrigues, consegue capital para abrir seu armazém de secos e molhados.

O bairro do “Maneco”, como era conhecido o Bonfim neste tempo, vai tomando forma real de um bairro. Um açougue, o armazém de secos e molhados, uma farmácia. As ruas passam a ser servidão e o bairro fixou seu traçado básico através das ruas Manoel Rodrigues e André Rovai, exatamente onde estão hoje. Este era um tempo de prosperidade p(ara o bairro, afinal era no seu lado da linha que a grande maioria dos moradores do distrito trabalhava ou morava.


Com o crescimento do bairo, construiu-se a igreja Bom Jesus do Bonfim, localizada na rua André Rovai, que começou a ser construída no final dos anos 20, quando a família Rodrigues doou para a comunidade um terreno para este fim. A construção se iniciou rapidamente e já estava bastante adiantada quando o arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo, mandou interrompê-la. O motivo é que a igreja iria ficar pronta antes da Matriz de Santo Antônio, hoje Catedral, inaugurada em 1931, e isso seria inconcebível.

Segundo Edson Orsi, um dos atuais coordenadores da igreja, "a construção foi retomada somente no final dos anos 30, quando começaram as atividades religiosas, tendo como responsável o padre Bonifácio". A família Rodrigues doou ainda uma cruz (vinda do Estado da Bahia) e o altar de mármore.

Por causa do comércio e da facilidade de cruzar a linha, é que foi aumentando o interesse das pessoas em comprar as terras do Maneco.

Depois do armazém do Maneco, inaugurou-se a ferraria de Nicola Leme, a sapataria de Domingos Finochio, o comércio de secos e molhados de José Fiorita e Paschoal Gocci, do bananeiro Venâncio Pires, entre outros. As famílias de Pedro Michelli, Leonildo e André Rovai, Vicenti Lorenzi e Ascanio Pierini eram moradoras do bairro nestes primeiros 20 anos.

Por vários anos, passar de um lado a outro da estrada de ferro não era esforço. Bastava atravessar a linha na passagem de nível e observar a cancela que ficava entre as ruas André Rovai e a rua da Estação, exatamente onde hoje está a passarela quase em frente a rua Ester Rombenso.

O Bonfim e o comércio da rua André Rovai chegaram aos anos 40 com um razoável número de estabelecimentos, formados principalmente por lojas de tecidos e calçados. No bairro, também se instalaram os primeiros postos de serviços públicos do distrito, como a cadeia e o posto telefônico (posteriormente transferidos para a rua Paulo Lício Rizzo, que fica atrás da Câmara Municipal), além dá primeira "pharmacia", de propriedade de Pedro Floretti.

Com a chegada dos trens elétricos e o aumento do tráfego de trens, surgiu a necessidade de se fechar a linha de acesso pelos trilhos e, com isso, o bairro foi perdendo o serviço.

O trânsito rápido de veículos e ônibus que passam nas avenidas Nações Unidas, Fuad Auada, e nas ruas Erasmo Braga e André Rovai não devolvem ao bairro o vigor urbano experimentado em seus primeiros anos de existência. Destes tempos, a André Rovai conservou casas que mantêm o padrão arquitetônico de antigamente, mas sem expressar beleza. Pelo contrário, são moradias que, em sua maioria, não recebem quaisquer cuidados há pelo menos 30 anos. E talvez por isso, ou graças a este parar no tempo destas moradias, que o bairro pede um olhar mais atento da administração municipal.

Hoje o Bonfim é um bairro que precisa ser revitalizado e reintegrado a paisagem e ao desenvolvimento da cidade.

As Vilas Operárias São o Patrimônio Cultural Esquecido


As primeiras moradias de Osasco eram vilas operárias; a única que resiste até hoje é a do Bonfim, mas em precário estado de conservação

Os lucros da economia cafeeira; a instalação das primeiras ferrovias; a intensificação da imigração; o início da industrialização. Todos esses fatores históricos caracterizam a segunda metade do século XIX e provocaram um padrão de ocupação urbana que alterou o perfil de pequenas e grandes cidades paulistas.

Regiões pouco povoadas ou mesmo com perfil ainda rural começaram a ser ocupadas, guiadas pela implantação de fábricas e indústrias ao longo da faixa da ferrovia. Próximas aos conjuntos industriais e às estações de trem surgiram as primeiras vilas e bairros operários.

Em Osasco, a primeira vila operária foi construída nos fundos da olaria de Antônio Agu, onde hoje situa-se o bairro do Bonfim. Depois, foram construída as vilas operárias do Frigorífico Continental, da Vila Campesina e a da Cartieira, para citar apenas as primeiras.

Hoje em dia, apenas a Vila Ferroviária do Bonfim é que ainda está de pé. Existem poucas formas de moradia como esta, e as que sobreviveram estão com conservação precária. Assim, achamos importante descobrir como Campinas fez para conservar suas vilas operárias e seus moradores.

A Vila Manoel Dias, integra a Vila Industrial de Campinas (SP) e começou a ser construída por volta de 1908, para os funcionários da Estrada de Ferro Mogiana.

Depois de quatro anos de discussões, o Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc), em parceria com a Caixa Econômica Federal (CEF), iniciou intervenções para salvar, em caráter de urgência, casas da Vila Industrial. Por meio do Programa de Arrendamento Residencial (PAR) da CEF, 34 casas da Vila Manoel Dias, que integra a Vila Industrial, serão restauradas. A previsão é que as obras durem oito meses e que o programa seja depois estendido a outras vilas do bairro.

“A opção inicial do projeto de recuperação da vila é o morador. Não existe nenhuma intenção de se refazer o perfil da população local”, garante Daisy Serra Ribeiro, responsável pela Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural, órgão ligado ao Condepacc e à Secretaria Municipal de Cultura de Campinas. Os moradores que quiserem permanecer no local após a restauração, poderão participar, através do arrendamento, da compra das casas.

O Programa de Arrendamento Residencial da CEF possui uma linha especificamente voltada para a recuperação de imóveis privados reconhecidos como patrimônio histórico. A Vila Manoel Freire foi comprada pela HM Construtora, empresa que será responsável pelas obras de recuperação. Depois de restauradas, as casas deverão ser vendidas, através da CEF, a preços considerados populares.

Quem sabe esta não seja uma boa alternativa para a recuperação das casas da vila ferroviária do Bonfim?

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